quinta-feira, abril 12, 2018

Projecto "de abandono em abandono " MELISSA

Nesses dias em que minha mãe entra, convidando meu tio a dormir ali, na beira de mim, agarro com força os lençóis, mordo a fronha e fico depois horas abraçada a ti Melissa. Desde que o pai foi até ao longe que não posso ver, que todos me dizem sem medo te "pareceres a uma bruxa de olhar arregalado"... em cima do armário, de frente para a cruz santa de pau santo. A minha meninice... Não me vem à lembrança porque isto não conta pois não? O que dói não conta, certo? Então não me lembro de nada mais. Mas Melissa... tu sim, sabes de tudo e tens o poder de, apenas com o olhar fazer tremer de medo o tio e os primos que se metem comigo no escuro dos cobertores. A mãe diz que faz tudo por minhalma e das frestas da porta só percebo a sobra da frase: raspagem. Não sabendo o que é soa a Língua que não se aprende. Corro pelos ramos da janela e estendo o lençol até ao mar que dizem haver para além desta vida, onde sonho o Brasil ou a Austrália que vejo às escondidas na telenovela. Agarram-me por trás, já eu vou no sétimo céu, e fico-te com o coração mas a cabeça tua voa. Vai, abre um caminho pelas ondas fora e quando chegares ao outro lado do mundo conta tudo às crianças que são crianças... Deixa-as lavar loiça ou apanhar batatas, erguer tijolos ou andar de cara tapada, mas dá a cada uma a voz que fure orelhas por detrás das argolas e força nas mãos para estrangular os gigantes de roçadoira no queixo . Por favor, não te esqueças desta tua querida irmã dona, nem de como toda a gente deve poder comer farturas e fazer bolas de sabão.

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